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Jornal do Commercio - 16/06/2004
Campina Grande se entrega não só ao forró, mas também ao mundo hi-tech: faz sucesso como pólo de tecnologia
CAMPINA GRANDE (PB) – Um dos mais importantes pólos de Informática do País, com mais de 70 empresas, reconhecimento nacional e internacional e baseado no princípio da integração entre universidades e mercado. Não, não estamos falando do Porto Digital. O pólo em questão nem fica em Pernambuco, mas na Paraíba. Trata-se de Campina Grande, que fica a cerca de 250 quilômetros do Recife, mas, no que diz respeito à tecnologia, está bem pertinho.
Mais verde que de costume devido às chuvas recentes, a cidade comemora os bons frutos, especialmente no mercado de Tecnologia da Informação (TI): exportou nada módicos US$ 410 mil ano passado e US$ 240 mil de janeiro a maio, conseguiu atrair investimentos de grandes multinacionais como HP, Nokia e Motorola, além de ter clientes em mais de 23 países. E clientela da boa, como Interpol, Brasil Telecom, alguns ministérios, Senado, AmBev, Coca-Cola, Banco do Brasil...
O segredo para tanto sucesso lá fora? “As empresas daqui têm vocação natural para prospectar mercados externos, porque não há como sobreviver vendendo TI em Campina Grande”, diz um dos pioneiros em empreendimentos digitais do município, Alexandre Moura, proprietário da quase balzaquiana Light Infocon. Fórmula, garante, que mercados maiores, como o recifense, ainda não descobriram. “O que ocorre no Recife e, em menor escala até em São Paulo, é que muitas empresas se acomodam no mercado local.”
Como a maioria dos centros de produção de tecnologia, o pólo de TI de Campina Grande começou em torno da universidade. Hoje está dentro dela: com apoio da prefeitura e do Governo do Estado foi construída, em 1984, no campus da Universidade Estadual de Campina Grande (UEPB), a Fundação Parque Tecnológico da Paraíba (PaqTcPB). Com a função de mediar a relação entre mercado e academia, tornou-se um ‘guarda-chuva’, “debaixo do qual tocamos vários projetos”.
Qualquer semelhança com o pólo recifense não é mera coincidência. “O contexto regional é o mesmo. As empresas só poderiam nascer e se organizar de forma semelhante”, confirma o secretário de Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco, Cláudio Marinho. A concepção da PaqTcPB, de mediadora entre a produção de conhecimento e geração de negócios, lembra muito a do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar). Já a operacionalização... Em vez de concorrer com as empresas locais, a fundação se restringe a fazer o ‘meio de campo’: atrai demandas do mercado e convoca os empresários locais. Comparando com o contexto recifense, é como se fizesse o papel do Cesar e do Núcleo de Gestão do Porto Digital ao mesmo tempo.
Também há empresas saídas da universidade para o mercado, mas elas não sediam projetos de inovação que visam atender a todo o ‘cluster’. Esse papel é da fundação, que não está no páreo. Uma das primeiras foi a consultoria Atecel. Depois vieram os ‘cases’ Apel e Light Infocon.
Administrativamente também há muitas diferenças. Enquanto o Porto é uma organização social sem fins lucrativos, a PaqTcPB é uma entidade de direito privado. E os projetos criados a partir dela, como o agente Softex e a incubadora, estão embarcados de fato e de direito: não têm CNPJ próprios. “Assim fica mais barato gerir a infra-estrutura”, diz Alexandre. A diretoria da fundação é compartilhada pelo Governo, empresas e academia.
Mas a principal diferença é de escala. Enquanto Campina Grande, segundo o IBGE tinha 70 empresas de tecnologia em 2002, no Recife eram 529 em 2001. “Entre empresas de software e serviços”, diz Cláudio Marinho. Segundo ele, as exportações da Paraíba impressionam, mas ficam bem atrás dos resultados de Pernambuco. “Uma pesquisa recente do IBGE mostrou que 40% do faturamento do setor de TI do Nordeste vêm do nosso Estado. A Paraíba responde por 5% a 10%.” Para ele, as diferenças são muitas, mas as semelhanças, bem mais relevantes.
Os dois são estados irmãos, garante, que buscam espaço num mercado de players gigantescos e padecem dos mesmos males, como a falta de capital de risco e de intimidade dos empresários com o inglês. Sem falar nas precárias condições socioeconômicas do Nordeste. Mas essa é uma história que começa a ser reescrita.
Investimento atrai bons resultados
Empresas como Nokia e Motorola investem na Paraíba e fortalecem relação da universidade com pólo de tecnologia local. Somente a HP investe R$ 1,2 milhão ao ano
CAMPINA GRANDE (PB) – O que mais impressiona no mercado de Tecnologia da Informação (TI) de Campina Grande, além dos resultados, é a informalidade que sempre foi sua marca. Desde o princípio, o que pauta as relações entre as empresas está além de estatutos: são acordos de cavalheiros.
Um deles estabeleceu as ‘regras’ referentes à composição da diretoria do PaqTcPB, que não estão registradas em documento algum, mas há anos são respeitadas. “Todos os empresários se conhecem há muito tempo. Existe uma relação de proximidade e até de amizade mesmo”, diz Alexandre Moura, da Light Infocon.
Mas também existe muito profissionalismo, vocação e reconhecimento. A prefeitura reduziu as taxas do ISS, doou terrenos e reservou para o setor a área onde estão situadas as duas universidades públicas e a fundação, que batizou de Mancha Digital. Entre as empresas, a HP encaminha para Campina Grande 80% dos investimentos que faz no Nordeste via Lei de Informática. Isso soma R$ 1,2 milhão por ano para o Laboratório de Sistemas Distribuídos (LSD), que fica na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), onde cerca de 30 pessoas trabalham em 40 máquinas da HP para desenvolver o conceito de grid computing. “Consiste em transformar a Informática num serviço, como luz e água: as pessoas escolheriam um pacote de serviços e receberiam a máquina em casa, sem assumir a manutenção nem de hardware, nem de software”, explica o coordenador, Walfredo Cirne. Essa tecnologia, diz, só deve ‘pegar’ dentro de uns 10 anos.
“Nossa missão é encurtar esse prazo, criando sistemas distribuídos para aplicações pontuais que já possam ser usadas agora.” Um exemplo é um sistema de gerenciamento de trânsito que faz milhares de combinações para definir melhores trajetos. Outras empresas que investem na cidade são Nokia e Motorola. A universidade desenvolve projetos para Chesf e Petrobrás.
O laboratório de melhores resultados é o de teste de usabilidade, surgido da demanda local e hoje prestador de serviço para várias empresas. “Uma equipe de especialistas em software e psicologia analisa as reações de usuários diante das soluções em teste”, explica Moura, que também participou da criação do laboratório. A partir de critérios e padrões internacionais, os sistemas são avaliados sobre as condições de uso.
OÁSIS – Com tantos argumentos, ou melhor, investimentos, a cidade está mais que convencida da importância da tecnologia para o crescimento econômico e o setor vai ganhar o status que merece: a mancha vai virar oásis. Com apoio do poder público, será construído ao lado da atual sede da fundação um prédio de 16 andares para abrigar as principais empresas da cidade, projeto chamado de Oásis Digital.(B.C.)
Cooperação é trunfo para os pólos regionais
Ter um mercado interno muito acanhado ajuda a exportar. Mas não basta. Por isso 11 empresários de Campina Grande decidiram formar um consórcio para criar métodos padronizados e sistematizados de comércio exterior, com investimentos da Agência de Promoção à Exportação (Apex), Sebrae e dos próprios executivos.
O projeto tem a mesma origem do PSI recifense. “A princípio, a idéia era fazer uma coisa integrada para todo o Nordeste, mas foi ficando complicado e lento demais. Achamos melhor separar”, diz Alexandre Moura, da Light Infocon. O Ceará também foi contemplado com recursos.
Uma particularidade do projeto de Campina Grande é a presença de empresas de hardware. São três – Zênite, New Ink e Apel – que comercializam respectivamente equipamentos para redução de custos com telefonia móvel, cartuchos remanufaturados e máquinas de teste para esses produtos e hardwares de radiodifusão, circuito interno de TV e cronometria (aquelas maquininhas que marcam os horários de vôo nos aeroportos). O curioso é que alguns nem fabricam o material. A Zênite, por exemplo, compra a ‘carcaça’ dos produtos que vende em outros países e coloca a inteligência, ou melhor, os chips.
Orçado em R$ 2,3 mil, o projeto, batizado de PB Tech, está dando bons resultados. “Ano passado, quando começou, apenas duas empresas exportavam, Apel e Light Infocon. Hoje, já são quatro”, diz a coordenadora, Jailma dos Santos. O volume de exportações também subiu, de US$ 410 mil no ano passado para US$ 240 mil de janeiro a maio deste ano. “Vai ser fácil cumprir a meta do projeto, que é exportar US$ 1 milhão até dezembro.”
Já para o PSI recifense será quase impossível. A meta é exportar R$ 3 milhões até julho de 2005, mas as 34 empresas obtiveram pouco mais de R$ 300 mil. Mas isso não preocupa a coordenadora dos programas, Izabel Favero. Segundo ela, os projetos de Campina Grande e Recife têm focos diferentes, mas são ambos bem sucedidos. “Ainda que Recife não consiga cumprir a meta, conseguiu fazer algo muito importante, estruturar as bases para a exportação, com foco na certificação”, diz. “As metas são negociáveis.”
Mas no caso da Paraíba, os executivos estão aumentando o desafio. Eles querem conquistar um lugar no mercado mundial para cada um dos 11 participantes sem muita demora.
Em dezembro passado, o município assinou um acordo de colaboração bilateral na área de TI (pesquisa e comércio) com a cidade chinesa de Zhaoqing. Os ministérios de tecnologia dos dois países endossaram o acordo, validando o trato para além dos limites das cidades-sede. Mas serão elas as responsáveis pela administração das ações comuns. “As empresas brasileiras que tiverem interesse em prospectar mercados orientais só precisam nos procurar e o mesmo acontecerá lá”, conta a coordenadora da unidade paraibana do projeto, chamada de Tec Out, Francilene Garcia.
“Eles têm know-how em hardware e reconhecem que o nosso é software. Pretendem rodar nossas soluções em seus produtos”, diz. O primeiro tema de negociações foi e-gov. “Recebemos semana passada uma missão chinesa, que visitou Rio, São Paulo e Brasília, e viu apresentações e soluções de várias empresas, inclusive do Porto Digital.” Algumas das tecnologias serão utilizadas em caráter piloto pela província de Cantão.
Essa não foi a primeira experiência de colaboração entre os dois pólos. Atualmente existe até um profissional de uma das empresas trabalhando no projeto de desenvolvimento de aplicações para celular do Cesar. E não será o último. “Mantemos boas relações e queremos ampliar a cooperação”, diz Moura. (B.C.)
Incentivo também ao empreendedorismo
Desde 1988, a Fundação Parque Tecnológico da Paraíba abriga uma incubadora de empresas, para fomentar a formação de novos negócios na área de TI. Com foco nas áreas de software, design, agroindústria, eletroeletrônica e cooperativismo, tem capacidade para atender até 20 empresas simultaneamente.
A média é de 6 a 7 por período de incubação, mas atualmente todos os módulos estão ocupados. “Esta é a segunda vez na história da incubadora que isso ocorre”, diz Alexandre Moura. O processo de seleção é via edital aberto ou ‘garimpagem’, busca no mercado de perfis promissores.
A infra-estrutura de apoio inclui: 20 módulos de 30 metros quadrados, laboratórios compartilhados de computação e eletro-eletrônica, sala de reunião, ambiente para treinamento, refeitório, acesso à Web via link de rádio, além de serviços de limpeza e segurança, assessoria contábil e jurídica, divulgação e orientação mercadológica com direito a elaboração de plano de negócios e tudo mais.
As empresas têm ainda apoio específico nas áreas de Marketing e vendas, design (relacionado à criação de marca e material gráfico) e comunicação e eventos, que é dado por centrais formadas por empresários que se instalam na fundação para prestar serviço para a incubadora e, eventualmente, para os demais projetos da entidade.
Entre as empresas incubadas atualmente estão Pacto 4, Cstec, BBR, Decisão, SM3, da área de TI, além de Eventos.com, para organização de eventos, LEE – laboratório de eficiência energética, e Cooagril, cooperativa do setor agroindustrial. “Não temos uma taxa de sobrevivência precisa, mas sabemos que a maior parte das empresas que fazem o spin-off sobrevivem no mercado”, diz Moura. Na pior das hipóteses, no mercado vizinho, como Recife ou Fortaleza.(B.C.)
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