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Tesouro escondido
A indústria brasileira de software vale ouro.
Só falta o mundo -- e o próprio Brasil -- ficar sabendo disso
Revista Exame Edição 795- 25/06/2003
Preste atenção nas três histórias a seguir:
- No mundo todo, não passa de dez o número de empresas que desenvolvem
sistemas de controle e defesa de tráfego aéreo -- uma das atividades
mais dependentes de tecnologia que existem. A brasileira Atech, de São
Paulo, integra essa dezena. Seus sistemas controlam 80% dos aviões que
cruzam o país -- ela foi responsável pela integração do bilionário e
controvertido Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam). Na América
Latina, a Atech é a única a desenvolver esse tipo de sistema. As demais
fabricantes de software de controle e defesa de espaço aéreo são
sediadas em países como Estados Unidos, França, Inglaterra e Alemanha.
- Há dois anos, Gérson Schmitt, presidente da Paradigma, de Florianópolis,
esperava em Anaheim, Califórnia, diante de 5 000 pessoas de 60 países, o
momento de receber da Microsoft a medalha de melhor empresa
latino-americana de comércio eletrônico. Surpresa: a empresa de Bill
Gates anunciou a Paradigma como ganhadora não apenas da medalha de
melhor empresa latino-americana mas também do troféu de melhor empresa
mundial do setor.
- Num encontro de segurança pública na Espanha, em 2000, policiais
brasileiros perguntaram aos espanhóis de qual empresa americana era o
banco de dados que usavam. A resposta: não se tratava de uma empresa
americana, mas da Light Infocon, de Campina Grande, na Paraíba. A
Polícia Nacional e o Ministério da Defesa da Espanha usam o software
brasileiro desde 1999.
Agora ouça o que diz Alice Amsden, professora de política econômica do
festejado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT): "A produção de
tecnologia da informação no Brasil é um dos segredos mais bem guardados
do mundo". Alice chegou a essa conclusão depois de avaliar o desempenho
de 57 empresas brasileiras que desenvolvem software e serviços
relacionados. A pesquisa faz parte de um estudo que compara as
indústrias de tecnologia da informação e comunicações de três países
emergentes: Brasil, Índia e China. Para Alice, o Brasil deve ser
considerado uma das principais forças do setor entre os países em
desenvolvimento. "Mesmo desconhecido no exterior, o software brasileiro
está se transformando num tesouro", diz ela.
Para muita gente, essa afirmação deve soar exagerada. E não sem motivo.
O cenário é desconhecido não só pelos estrangeiros mas pelos próprios
brasileiros. Poucos sabem que, nos últimos anos, a indústria nacional de
software deu um salto de capacitação e competitividade. As empresas
criaram novas tecnologias, ajudaram a abastecer o mercado interno,
aprenderam a competir e, muitas vezes, a ganhar das multinacionais. De
1995 para cá, o setor cresceu à taxa média anual de 11%, índice que
equivale a cinco vezes o crescimento do PIB nacional (veja quadro
abaixo). Só nos últimos cinco anos, as empresas estudadas por Alice
cresceram em média 300%. Recentemente, elas até abriram as portas do
mercado internacional.
Na opinião de especialistas, o software brasileiro não faz feio na
comparação com o das demais economias emergentes. "Observe a indústria
de tecnologia da informação do México, país que vive uma fase de
ascensão econômica, é vizinho dos Estados Unidos, pertence ao Nafta e
tem renda per capita maior que a brasileira", diz o português Francisco
Veloso, professor de gestão e política tecnológica da universidade
americana Carnegie Mellon e da Universidade Católica de Portugal.
"Teoricamente, o México poderia ser uma potência tecnológica, mas seu
mercado equivale a um sétimo do brasileiro." De acordo com Veloso, um
dos indicadores fundamentais de desenvolvimento da indústria de
tecnologia brasileira é seu tamanho em relação ao PIB nacional: 1,5%. Na
Índia, esse índice é de 1,7%, e na China, de 0,6%.
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